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ISCAS 

Qualquer que seja a modalidade de pesca de anzol, um item de importância fundamental é a isca. Em nosso caso, que é a pesca de arremesso de beira de praia (e de fundo), ficam excluídas desde logo as iscas artificiais, cujas particularidades e variantes constituem um vasto campo à parte de know-how específico e cujos conhecimentos dizem respeito a outras modalidades de pesca. Mas as iscas naturais, tanto quanto as artificiais, envolvem muitos macetes e conhecimentos importantes para o sucesso de uma pescaria.

 Os peixes são, na maioria, carnívoros. Eles se alimentam de peixes menores, crustáceos, moluscos, vermes e outros pequenos seres aquáticos. Em matéria de iscas, há um conceito generalizado entre os pescadores, segundo o qual as melhores são as que existem no lugar, as quais o peixe está acostumado a comer€D Com efeito, assim como acontece com o homem, também o peixe parece desenvolver hábitos alimentares, de sorte que, conforme a região, pega melhor em determinadas iscas. Por exemplo: no litoral sul de São Paulo, que pertence ao Vale do Ribeira, todos os peixes marinhos pegam bem na isca de manjuba, peixinho abundante na região. Essa preferência alimentar varia, ainda, de espécie para espécie. Para complicar mais a vida do pescador, uma mesma espécie parece preferir determinadas iscas em certas épocas ou ocasiões. Seja como for, a isca universal, por assim dizer, a mais comumente usada para a pesca no mar, é o camarão: pedacinhos descascados para peixes menores, inteiro para peixes maiores. Como existe em todos os mares, constituindo um dos principais alimentos dos peixes, qualquer peixe o come. A propósito, mesmo em se tratando da mesma isca (o camarão no caso), é voz corrente de que é melhor arranjar a isca no lugar onde se vai pescar do que levá-la de casa, comprada numa feira ou na peixaria da esquina. O que é certo é que a isca deve ser preferentemente bem fresca, sem cheiros estranhos ao peixe. Se bem que haja espécies, tais como os bagres, que parecem não se importar com o frescor do que comem, pegando até em iscas semi-deterioradas.

 O camarão mais usado como isca é o sete-barbas, que, além de ser mais barato e fácil de ser encontrado, parece ser mais apreciado pelos peixes do que as espécies maiores e mais caras. Já ouvimos de caiçaras que é porque o sete-barbas tem mais cheiro, e por isso mesmo ele não deve ser muito lavado nem conservado no gelo por muito tempo. O problema é que o sete- barbas, por ser um camarão mais sujo, pode estragar-se mais rapidamente caso não seja lavado para ser guardado. Além disso, ele tem carne mais mole do que as espécies maiores.

 Quando se precisa executar fortes arremessos com pedacinhos de isca, prefere-se o camarão cinza, também conhecido como ferrinho ou laguna, ou o camarão branco, também chamado legítimo, cuja carne é mais consistente e se prende melhor no anzol.  

 A segunda isca mais empregada pelos pescadores de beira de praia deve ser a sardinha, principalmente quando se tenta peixe grande. Usa-se em forma de filés, toletes, ou mesmo a metade da cabeça ou do rabo. Também pedacinhos podem ser usados na pesca de peixes menores, como uma alternativa. Quando o camarão não dá resultado, uma mudança de isca deve ser tentada, pois às vezes melhora a situação.

 O grande problema da sardinha é ser uma isca muito mole, que se desmancha facilmente, não parando no anzol. Isso porque a sardinha, mesmo a dita fresca, não é tão fresca assim que acabou de ser pescada. Desde o momento em que é tirada da água, apanhada pelo barco sardinheiro, até chegar ao entreposto de pescado e dali ser transportada ã peixaria ou à banca de feira, com o inevitável manuseio e o sucessivo processo de gela- degela, para finalmente ser comprada pelo pescador e voltar ao mar, a sardinha terá feito um longo passeio por terra de dias ou semanas, com prejuízo para a consistência original de sua carne. Daí, costuma-se salgá-la, para que fique razoavelmente desidratada e consistente. Também se pode conservá-la fresca numa geladeira de isopor com água gelada e sal grosso, que ficará durinha. Amolecerá ao afundar na água do mar e degelar, mas o que importa é que aguente o arremesso.

 

A respeito, sabe-se que qualquer isca natural funciona melhor quanto mais fresca for. Portanto, à sardinha salgada sempre é preferível sardinha fresca, que não tenha ficado muito tempo conservada no gelo. Mesmo sem se deteriorar, isca conservada muito tempo (semanas, ou, pior, meses) no gelo parece que perde o cheiro e o sabor, e o peixe a refuga.

 Para resolver o problema de os pedaços de sardinha fresca se desmancharem e não pararem no anzol, o jeito é amarrá-los, o que a maioria do pessoal não faz por preguiça ou por achar que dá trabalho e faz perder tempo. Até há pouco tempo, só um ou outro pescador mais caprichoso tinha paciência para amarrar suas iscas de sardinha fresca com linhas ou elásticos. E essa paciência era recompensada, não raras vezes, com a obtenção de bons peixes. Se os pescadores, em geral, revelam tanta paciência enquanto aguardam uma boa puxada de peixe, não há por que ter tanta pressa em lançar o anzol a ponto de não caprichar na colocação da isca.

Mas os pescadores, que são, antes de tudo, eméritos inventores, descobriram que uma forma simples e prática de amarrar iscas moles ao anzol é por meio de um elástico fino, e isso em consequência da descoberta do crustáceo da areia apelidado de “corrupto”, do qual falaremos mais adiante. Como, para usar o “corrupto” como isca, era forçoso amarra- lo, foi preciso desenvolver meios mais práticos de fazê-lo. E para prender a isca rapidamente, o elástico é muito prático.

 Voltando à sardinha, da qual estávamos falando, filés desse peixe são recomendados principalmente para a pesca de arraias e xaréus. Para outros peixes grandes, toletes, e, melhor ainda, metades da cabeça ou do rabo.

 Outros peixes pequenos que são bastante usados como isca, em filés ou pedaços, são a cavalinha, o parati e a manjuba. Uma boa isca para cação, que não é atacada por peixes miúdos e oferece a conveniência de poder ser obtida no próprio local da pescaria, é a betara miúda, a qual pode ser iscada inteira ou em pedaços, com a vantagem de que, por ser fresquinha, não se soltará do anzol no arremesso.

 Por falar em ataques de peixinhos miúdos à isca que visa peixe grande, uma alternativa é a lula. Ainda que não seja das mais estimadas, esta isca tem a vantagem de não sair do anzol nem com o arremesso mais violento, nem peixinho algum a roubará. Acontece que no caso o mais importante não é a qualidade da isca de não se soltar do anzol, e sim, que ela seja atraente para o peixe, senão não adiantará nada. E é aqui que entra o “corrupto”, o mais recente personagem do variado elenco de iscas naturais, um crustáceo mole difícil de prender no anzol, mas que se revelou ser uma isca das melhores na pesca de praia e atrai qualquer peixe, grande ou pequeno.

 O que não dá para entender é como um bichinho nada ágil, vivendo enterrado na areia da praia, próximo a linha d'água, na mesma faixa das conchas, conseguiu atravessar todos esses séculos, desde João Ramalho, Brás Cubas e Anchieta, sem ser descoberto por nenhum caiçara ou pescador. Aliás, também nunca vimos referência alguma a ele em nenhum livro ou outra publicação sobre a vida marinha. O fato é que o pescador de beira de praia, após descobrir a poliqueta (que é também coisa recente como isca), foi beneficiado pela invenção de uma engenhoca simples mas genial para abrir furos na areia úmida e dura, que é a bomba de sucção feita de tubo de PVC. Com a bomba de sucção, era muito fácil sacar o recém-descoberto crustáceo de seu buraco. E assim, o “corrupto” foi logo guindado à posição de isca preferencial, com o necessário aval dos peixes. t Mas por que “corrupto”, se o pacato bichinho sempre ficou na dele, nunca deu golpes na praça nem tem nada a ver com enriquecimento ilícito e trambiques em geral? Ouvimos dizer, nos primeiros tempos, que seria por causa de um anel claro que os pescadores teriam notado na parte correspondente ao pescoço do crustáceo e que teria sido associado ao colarinho branco. Se dependesse de nós, o bichinho não teria ganho um apelido tão infamante e imerecido. Por mais que o tenhamos observado, não conseguimos identificar nele nada parecido com um colarinho branco, nem com colarinho algum. Suas características mais marcantes são a absoluta falta de agilidade quando sacado de seu buraco, sendo completamente indefeso, ao contrário de todos os outros crustáceos, a extrema fragilidade de todas as partes do corpo. mole, que se desmancham com facilidade ,-tanto que nem param no anzol para aguentarem um arremesso, a ausência de uma casca protetora rígida como têm os crustáceos em geral. Portanto, a explicação para o apelido deveria ser outra. Na verdade, 0 “corrupto” do bichinho parecia-nos mais coerente no sentido literal do termo, como qualificativo de algo em decomposição, que é a primeira impressão que temos ao pega-lo nas mãos.(2)

 O “corrupto” é geralmente iscado inteiro, pois, ao cortá- lo ao meio ou vazar com o anzol a sua parte ventral (a mais importante como isca por ser suculenta), ela se esvazia como uma bexiga furada. Em razão de seu tamanho, é iscado em anzóis médios para grandes, ou do n° 2 para cima, sem a parte da cabeça e do rabo e com cuidado para não vazare esvaziar a parte ventral. Em anzóis menores usam-se “corruptos” pequenos ou mesmo cortados, no caso com cuidados para não esvazia-los. Para que não se solte no arremesso, deve ser amarrado ao anzol por meio de um elástico fino ou sujeitado com outro recurso hábil. Pescadores que participam de competições de pesca esportiva, nas quais tudo é feito para não perder tempo, utilizam o Elastricot, um elástico finíssimo vendido nos bazares e lojas de armarinhos. Para amarrar o “corrupto” ao anzol, é só dar algumas voltas e pronto. O mesmo pode ser feito com outras iscas que sejam difíceis de parar no anzol.

 Para iscar o “corrupto” sem esvaziá-lo existe - há bastante tempo, aliás--uma fita importada própria para prender iscas moles ao anzol. Envolver o “corrupto” com essa película fina, que gruda molhada e fica quase invisível, dá um pouco mais trabalho do que enrolar o elástico, mas tem a vantagem de não esvaziar a isca.

 A poliqueta, anelídeo marinho conhecido pelos pescadores como minhoca da praia, é uma isca que se prende bem no anzol. Mesmo não sendo uma isca universal como o camarão, nas praias rasas onde ocorre em grande quantidade é uma isca excelente para a pesca, principalmente de peixes de pequeno porte.

 A exemplo de outros bichinhos marinhos que habitam a zona entremarés (a faixa de areia úmida que se descobre na maré baixa), vive entocada em buracos na areia do fundo do mar. Só pode ser apanhada na baixa-mar, assim mesmo com o mar mais ou menos calmo. Quando uma ponta de onda de espraiamento chega à linha d'água e dá uma parada antes de refluir, o bicho põe a cara para fora do buraco e fica tateando a lâmina d'água com suas anteninhas, ã cata de migalhas de alimentos. E nesse momento que o pescador o apanha. Como ele é muito esperto e some rapidamente no buraco, sua captura é trabalhosa, razão pela qual poucos pescadores se dão a esse trabalho. Aliás, sem conhecer os macetes do negócio, será extremamente difícil alguém conseguir arrancar inteira uma minhocona dessas.

Há pescadores que apanham esses anelídeos com um laço de linha de náilon, um cordonê fino ou mesmo um barbante, mas a coisa é complicada para quem não tem prática. Se já não é fácil laçar um boi, imagine laçar uma minhoca. Para quem nunca ouviu falar nisso, pode até parecer uma coisa de louco ou uma lorota de pescador. O fato é que existem muitos laçadores de minhoca que, para pescar, não precisam gastar comprando camarão, por sinal nada barato. O laço deve ser fechado rápido, no momento certo (quando a minhoca puser a cabeça toda para fora do buraco, no breve intervalo entre as ondas, atraída por uma isca) e com força calculada. Se faltar aperto no laço, a minhoca escapa, sumindo no buraco. Se o aperto for demais, você corta o pescoço dela, ficando só com a cabeça.

 O laço (do tipo simples, de nó cego) deve estar armado ao nível do chão, tendo o buraco da minhoca como centro, cada mão segurando uma ponta da linha.

 Quando põe a cabeça para fora do buraco, a minhoca está esticada. Ao ser laçada, encolhe-se instantaneamente e afunda. Por isso, é preciso ceder um pouco, dando linha, e deixa-la afundar, para não rompê-la, e só depois puxar, desde que haja água correndo por cima do buraco. Se puxa-la sem que o buraco esteja encharcado, geralmente ela se rompe.

 Tentando arrancar uma poliqueta com uma pá ou uma bomba de sucção, nunca a tiramos inteira, mas apenas os pedaços próximos à cabeça, pois ela é comprida, chegando a dar uns três palmos ou mais, ao ser sacada do buraco, esticada. O jeito mais prático é mesmo com a mão, apertando-lhe a cabeça entre os dedos (polegar e indicador) no instante em que ela sair um pouco do buraco e puxando-a em seguida. Se demorar um pouco para puxar ou der uma breve parada no meio da puxada, ela se prende no buraco e não sai. Se forçar, ela se rompe. Se puxar rápido demais, também se parte, e você fica só com a cabeça. A manha é, ao prender a cabeça dela entre os dedos, puxar num movimento rápido e contínuo: não tão rápido que possa arrebentá-la, mas sem lhe dar tempo de se prender no buraco, provavelmente por se contorcer. Por aí se vê que pescador leigo nessa minhocologia poderá apanhar muito até ficar craque no métíer.

 Para que a extração de minhocas seja mais rendosa, recomenda-se fazer uma ceva, arrastando sacos ralos (desses de batata, cebola, etc.) com um punhado de sardinhas, barrigadas ou carcaças de peixe, para um lado e outro, a fim de impregnar a areia e a água com cheiro e fragmentos. Com o cheiro, as minhocas botarão a cara para fora de seus buracos quando uma lâmina de água cobrir o lugar, e serão localizadas. Elas se recolhem assim que o buraco ficar sem o filete de água por cima com o recuo da onda.

 Minhoqueiros experientes fazem a ceva e, localizada uma minhoca (sempre das mais criadas, adultas), atiçam-na com uma isca (um pedacinho de sardinha, por exemplo) que segura na mão esquerda, aproximando-a do buraco. No que a minhoca percebe a isca e tenta pega-la, esta é afastada um pouco, para obrigar o bicho a sair mais. Quando saio suficiente, o pescador o prende entre os dedos (da mão direita) e o arranca. Os mais hábeis conseguem, dessa forma, extrair dezenas desses anelídeos marinhos em pouco tempo. Para usar como isca, a minhoca é cortada em pedacinhos coerentes com o tamanho do anzol, desprezando-se a cabeça e a porção do rabo.

 Tanto o “corrupto” quanto a poliqueta só podem ser apanhados nas horas de maré baixa, principalmente nas baixa- mares de lua cheia ou lua nova, ocasiões em que a linha d'água recua mais, descobrindo as faixas onde habitam essas criaturas.

 Além das iscas mencionadas, podemos alinhar outras tradicionalmente conhecidas, tais como o cernambi, o tatuí, o marisco (mexilhão) e a conchinha conhecida por vôngole. Fora o marisco, que vive grudado nas pedras batidas de ondas, os outros vivem enterrados na areia na zona entremarés e podem ser apanhados na baixa-mar. Também o marisco só pode ser apanhado facilmente nas horas de maré baixa e mar mais ou menos calmo, pois sua coleta, em outros momentos, pode ser arriscada. O grauçá, o caranguejinho branco da areia, e o pequeno guaiá, o caranguejinho das pedras, podem ser opções de iscas, principalmente para peixes grandes, numa eventual falta de iscas melhores.

 O tatuí é fácil de apanhar, mas não é fácil de achar, desde que não existe em quantidade em qualquer lugar. Nos lugares onde existe, forma numerosas colônias, frequentando a faixa entremarés como o “corrupto” e a poliqueta, com a diferença de que tem maior mobilidade, avançando ou recuando conforme o avanço ou o recuo do mar. Ele não tem um buraco fixo nem visível. Graças a suas fortes garras, afunda na areia facilmente. Indivíduos novos, menores, ficam mais no raso. No instante em que uma onda está terminando de voltar e se reduz a um filete de água, eles põem a cabeça para fora e podem ser apanhados com as mãos. Também na cata do tatuí uma boa ceva ajuda. Em muitas praias chamadas de tombo, de areia fofa e grossa e acentuada inclinação, não frequentadas por banhistas, encontram-se verdadeiras “minas” de tatuís, que podem ser apanhados a mancheias, simplesmente enfiando as mãos em Concha na areia.

 O vôngole e o cernambi são conchas (moluscos bivalves) que também habitam a zona entremarés. A localização do cer- nambi é denunciada por furinhos na areia úmida, fora da linha d'água. O vôngole, nos lugares onde ocorre em grande quantidade, é fácil de apanhar, porque fica enterrado no raso, quase na superfície, e no ponto se forma uma covinha depois do retomo da onda. Nas praias rasas e calmas de baías e enseadas, principalmente sem grande afluência de turistas, são encontradas enormes concentrações desses moluscos, que podem ser colhidos facilmente com as mãos, às centenas. Infelizmente, a chegada da urbanização, do comércio e de turistas dizima essas colônias de moluscos com a caça predatória que passa a lhes ser movida em grande escala por interesses comerciais desmedidos. Problema do qual estão livres bichinhos como o “corrupto” e a minhoca da praia por não estarem listados nos cardápios de restaurantes e turistas e por isso não serem alvo de ganância comercial.

 Outros moluscos também comestíveis, tais como o berbigão, a amêijoa, o sapinhaguá, a rosquinha, o linguarudo ou pavacaré, etc., dão boas iscas, apesar de não serem fáceis de arranjar.

 Numa praia onde houver costões de pedra nas proximidades, a baratinha das pedras poderá ser uma alternativa de isca, embora seja igualmente trabalhoso apanhá-la. Um jeito cômodo de pegar essas espertas baratinhas de beira-mar (que, aliás, não são baratas, porque são crustáceos) é comum uma espécie de covo improvisado com uma garrafa de plástico, com a boca natural tampada e o fundo aberto para a entrada dos bichinhos. Com um camarão amassado dentro, no fundo, para servir de isca, a garrafa é deixada deitada num canto úmido entre as pedras, abrigado das ondas e à beira da água, e em poucos minutos estará cheia dessas baratinhas. A garrafa deve estar encapada com papel ou plástico opaco para que os bichinhos não fujam quando o pescador se aproximar para apanhar o covo, virar a boca para cima e tapá-lo com a mão. Também pode ser um covo ou um saco de véu, com uma boca que possa ser fechada com as baratinhas dentro. E claro que a prática poderá levar o pescador a bolar jeitos melhores.

 Em algumas regiões, iscas diferentes, encontráveis no lugar, como o corongondó, o moçorongo e o siri-mole, são boas alternativas.

 Em matéria de iscas, alguns dos peixes mais brigadores e apreciados, a exemplo do robalo, da pescada-amarela, do camurupim e da bicuda, e de forma geral todos os peixes predadores esportivos, demonstram franca preferência por iscas vivas. Essas iscas, que podem ser peixinhos ou crustáceos, devem ser iscadas no anzol de forma a não matá-las ou imobilizá- las. E de lembrar que os peixes não distinguem formas, por não serem dotados de acuidade visual para detalhes. Por força de seu meio ambiente, a água, que não é boa transmissora de luz, eles estão aptos a enxergarem movimentos, além de terem audição e olfação extremamente desenvolvidas. Convém, pois, que com isca viva a pernada do anzol seja bastante longa para que o peixinho ou o camarão possam ficar nadando de um lado a outro, com maiores possibilidades de atrair peixe grande. Crustáceos como o camarão e o tatuí e peixinhos como o amboré e o muçum, usados vivos, são iscas das melhores. O problema é arranjar isca viva e conservá-la durante o tempo de uma pescaria.

 O camarão vivo (normalmente pescado por caiçaras e vendedores de iscas nos canais e rios que desaguam no mar) pode ser conservado numa geladeira de isopor com água e à sombra. Há quem prefira ajudar com uma bombinha oxigenadora movida a pilha. Mas, com oxigenação ou não, se a água do recipiente esquentar, o camarão morre. Aliás, é mais fácil o camarão morrer do calor do que da falta de oxigênio na água.

 Antigamente, no tempo em que ainda não existiam geladeiras de isopor, usávamos um método que aprendemos dos caiçaras. Para conservar camarões vivos durante algumas horas, deixávamos os crustáceos num cesto de vime ou taquara com uns pés de guapé por cima. O importante, no caso, é manter a umidade e o frescor do viveiro. O mesmo vale para o “corrupto”, o tatuí e outras iscas, desde que a temperatura da água seja mantida amena e estável. Quanto aos camarões vivos, nós mesmos os pegávamos, passando uma peneira, dessas grandes de café, nos pequenos córregos e canais de beira-mar. Junto com os camarões vinham amborés e outros peixinhos, que também serviam de isca. Sem dúvida era menos cômodo do que comprar as iscas num entreposto, mas não era em qualquer lugar que se podia comprar iscas. Em compensação, era tudo grátis.

 Por isso, mesmo nas regiões pouco povoadas, onde não houver vendedores de iscas, pescador prevenido dificilmente ficará sem iscas para pescar. Além de desenterrar moluscos, vermes e crustáceos na praia, poderá apanhar mariscos, baratinhas e guaiás nas pedras de um costão. Se não houver nenhum costão próximo e a maré estiver alta para pegar bichinhos da areia, poderá passar uma peneira num desses corguinhos rasos e estreitos que desaguam no mar, e colherá, em pouco tempo, muitos camarões e peixinhos. Certo, não é qualquer um que anda com uma peneira no carro, mas também nos referimos a pescador prevenido.

 Notas do autor

(1) Este conceito não deve ser verdadeiro em relação aos peixes em geral. considerado que em Mato Grosso (hoje do Sul) sempre fizemos ótimas pescarias com isca de moela de perdiz-algo que nenhum peixe pode estar acostumado a comer. Quando, em férias, íamos aos campos daquele Estado para caçar perdizes, levávamos também algum material de pesca sempre que ficaríamos próximos a um rio. Ao eviscerarmos as perdizes abatidas, guardávamos as moelas e, usando-as como isca, pegávamos qualquer peixe, desde piaus a dourados e pacus, piaparas e piracanjubas, de tal sorte que, mesmo quando tínhamos outras iscas, preferíamos as moelas, inteiras ou em pequenas fatias.

 Sem recorrermos a exemplos tão incomuns, podemos citar iscas mais conhecidas, como a mandioca para pacu, o macarrão chumbinho para lambari, o milho verde, o queijo. etc. Nenhuma destas iscas é alimento natural dos peixes, mas eles as aceitam bem, possivelmente porque os peixes de água doce, de modo geral, têm regimes alimentares mais variados e comem tudo o que lhes apetece ao paladar.

 (2) Segundo uma reportagem esclarecedora de Luiz Roberto de Souza Queiroz, publicada no jornal “O Estado de S.Paulo" (13/12/1991), o “corrupto” foi descoberto em 1964 pelo professor Sérgio de Almeida Rodrigues, biólogo do Departamento de Ecologia da USP. enquanto abria buracos na praia em busca de poliquetas gigantes. Quando. tempos mais tarde, os pescadores tomaram conhecimento do bichinho e descobriram que se tratava de uma ótima isca, ele ainda não tinha um nome vulgar. Os pescadores teriam, então, chamado a espécie de “corrupto", porque os bichinhos viviam nas costas do Brasil, estavam sempre escondidos. eram abundantes mas difíceis de apanhar.

 Nos anos 80. a fama do “corrupto” espalhou-se entre os pescadores de beira-mar. fazendo furor. Cada qual tratou. então, de construir a sua bomba de sucção. Tempos depois, a engenhoca, produzida por pequenos fabricantes artesanais, podia ser comprada por qualquer interessado nas lojas do ramo. Rumores alarmistas sobre o assunto talvez tenham chegado a cassandras ecológicas de plantão e a algumas câmaras municipais. sempre preocupadas em proibir qualquer coisa, mesmo sem conhecimento de causa, e em certos lugares foi proibido apanhar “corrupto".

 Apesar da boa intenção preservacionista de fundamentos equivocados, o “corrupto” crustáceo, da mesma forma que o corrupto humano, não corre nenhum risco de extinção, segundo o professor Rodrigues. A população desses crustáceos é tão numerosa que as praias estão infestadas deles, com uma média de oito indivíduos por metro quadrado em Santos. De mais a mais, o affaire “corrupto“, passada a euforia dos primeiros tempos, parece que arrefeceu e estabilizou em proporções não-preocupantes, longe de ameaçar a sobrevivência do bichinho. Acresce que ele não vive apenas na faixa rasa que se descobre na baixa-mar, mas também mais no fundo, onde não pode ser capturado, de forma que sua extinção seria difícil.

 A conclusão do cientista apenas confirma o que os pescadores diziam, embora baseados simplesmente em suas observações. Se o pescador de fim de semana nunca acabou com o peixe, muito menos acabaria com o “corrupto", dotado de grande capacidade reprodutora e usado apenas como isca. O bichinho só poderia correr perigo de extinção se as pessoas gostassem de comê-lo e ele tivesse valor comercial. O que acaba com as espécies, fora a destruição do meio ambiente, é a apanha predatória. feita em grande escala indiscriminadamente, quase sempre pela ganância pecuniária. Por exemplo: até há poucos anos, a praia de Indaiá, em Bertioga, abrigava uma considerável colônia de vôngoles. Quando íamos para aqueles lados para pescar, fazíamos uma parada naquele ponto a fim de colher vôngoles para isca. Como havia muitos, em poucos minutos colhíamos uns punhados, o suficiente para nosso uso. Alguns turistas também o faziam, mas por apreciarem ensopados de vôngole. E ano após ano, a situação se manteve. Ultimamente, os vôngoles do lugar desapareceram. Contou-nos um velho morador local que o extermínio foi causado por um restaurante que se instalou nas proximidades, com o aumento da afluência de banhistas, e promoveu uma implacável caça aos moluscos diariamente, inclusive mecanizando o processo para revolver o fundo do mar e fazendo um “rapa” em regra nos moluscos enterrados.

 O feitiço deve ter virado contra o feiticeiro, visto que, acabando com o vôngole, não tinha mais vôngole para vender. Já ouvimos uma história parecida quando crianças, não é? Claro, a da galinha dos ovos de ouro. O diabo é que quem saiu perdendo não foi só o depredador, mas também os pescadores, os turistas e a população local.

 (3) Cernambi - Mesmo estranhando, estamos escrevendo como manda o Dicionário Aurélio. Assim, cernambi, cernambiguara. Não sabemos por que cargas d'água, mas é de supor que o mestre Aurélio tivesse seus motivos. No entanto, ao lembrar que na prática há duas formas paralelas de largo uso popular sernambi e sarnambi-, não sabemos como seria a segunda forma que, para não ser incoerente, teria de ser escrito com um aberrante ç inicial. Posto que no vernáculo não existe palavra começada com ç, as duas formas seriam cernambi e sarnambi, com incoerência e tudo.

Fonte: Noções Gerais de Pesca de Arremesso

Autor: Silvio Fukumoto