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Molinetes

    Antigamente, o surfcasting era praticado quase exclusivamente com as carretilhas de tambor rotativo. Por isso, a primeira coisa que um iniciante na modalidade precisava aprender, a duras penas, era arremessar com uma carretilha. Os seguidos retrocessos e os "crepes" na linha ----sem falar no dedão queimado-----eram de desanimar qualquer um.

    Até hoje, ao que nos consta, na Inglaterra, a pátria do surfcasting, a maioria dos pescadores de beira de praia usa a carretilha (a qual eles chamam de multiplier ou revolving spool reel) em sua atividade. Deve ser uma espécie de instituição que vem de longa data, desde os tempos em que os molinetes, ainda incipientes, pequenos e frágeis, eram fabricados para pesca leve lances curtos, não passando de spinning reels, como até hoje são chamados os molinetes pequenos. Já na Espanha, o molinete é que conta com mais adeptos, assim como no Brasil e na maioria dos países, principalmente naqueles onde a pesca com aparelhos de arremesso se popularizou mais recentemente. 

    Hoje existem molinetes de todos os tamanhos e categorias, desde os pequenos, para lançamento leve, até os maiores e mais robustos para a pesca pesada, de mais de 700 gramas de peso e grande capacidade de linha, que possibilitam arremessos extraordinários. Mas as carretilhas, por sua vez, para não perderem muito terreno para os molinetes na preferência popular, foram ficando diversificadas, incorporando cada vez mais melhoramentos. Muitas foram desenvolvidas que nem na aparência lembram os modelos tradicionais. Existem até carretilhas computadorizadas para pesca embarcada marítima que mais parecem calculadoras eletrônicas de mesa.

    De qualquer forma, vamos ficar aqui apenas nos molinetes, já que nos parece, em se tratando de um iniciante, mais aconselhável que comece com um molinete (também chamado carretilha de lance frontal ou bobina fixa, ou spinning reel e fixed-spool reel em inglês), por ser mais prático e ágil, dotado de maior velocidade de recolhimento da linha e, principalmente, facilidade de operação. Também os molinetes apresentam maior variedade de tipos, tamanhos e categorias, entre os quais muitos modelos de preços bem populares, ainda que em prejuízo da qualidade. Mas os custos mais baixos e o manejo mais fácil têm o mérito de tornar a pesca de arremesso mais acessível a maior parcela da população, inclusive a crianças. Não foi decerto sem boas razões que os molinetes passaram a predominar no mundo, contribuindo para a popularização da pesca lançada em suas diversas modalidades.

    A chave desse sucesso é, sem dúvida, a facilidade de manejo. Só o fato de não sair "cabeleiras" resultantes de imperícia no arremesso já facilita muito o seu uso e, claro, a entrada de novos adeptos na confraria. Mas por isso mesmo há entendidos que preconizam que todo pescador de arremesso deve começar aprendendo a usar carretilhas para assimilar logo as técnicas corretas de lançamento.

    Com efeito, as carretilhas são mais precisas, resistentes e duráveis, têm maior capacidade de tração, e oferecem outras vantagens nas mãos de veteranos experientes, mas um novato certamente se embananará  um bocado até aprender a lidar com uma carretilha, principalmente se for do tipo clássico. Em vez de brigar com o peixe, poderá ficar um bom tempo brigando com a carretilha.

..........A carretilha tem suas vantagens, o molinete é mais ágil, prático e fácil de operar

Molinetes grandes, médios,e pequenos: cada qual destinado a determinada categoria de pesca

Apesar de terem a mesma finalidade, o molinete e a carretilha utilizam princípios muitos diferentes na soltura e no recolhimento da linha. Daí as diferenças também na forma de operar um e outro aparelho. O princípio do arremesso do molinete é o mesmo da velha garrafa em que antigamente os pescadores barranqueiros enrolavam a linha para lançarem linhadas de mão. Além do carretel que não gira para soltar a linha, o molinete é colocado sob a vara, pendurado nela, e operado com a mão esquerda----o que os principiantes estranham até se acostumarem com o detalhe. A explicação para isso é que a mão mais forte e hábil deve segurar o peso do conjunto vara/molinete, manejar o caniço, fisgar e trabalhar o peixe. Contrariamente a essa lógica, a carretilha, por força de suas particularidades, é trabalhada voltada para cima e manivelada com a mão direita, a vara sustentada com a mão esquerda, os passadores também voltados para cima. Para os canhotos, muitos molinetes são dotados de manivelas que podem ser trocadas de lado para serem movimentadas com a mão direita.  

    O tamanho do molinete deve ser coerente com o conjunto do material  e o porte médio dos peixes visados, o que não significa que, caso se pegue um exemplar de porte avantajado, bem maior do que o esperado, não se possa tirá-lo da água. Na prática, isso acontece não raras vezes: não pegar nada no material forte com que se tenta peixe grande e, no material leve, quando menos se espera , pegar um exemplar enorme, bem acima da capacidade da linha ou do anzol

    Caso se disponha de carretéis intercambiáveis, recomenda-se abastecê-los com linhas de espessuras diferentes, com o que se aumentarão os recursos do equipamento . O que, evidentemente, é impossível numa carretilha. Em qualquer caso, o carretel deve estar corretamente carregado, cheio mas sem excessos, até o limite adequado, de maneira a se obter boa saída de linha. Linha de mais na bobina redundará em "cabeleiras" desastrosas, ao passo que linha de menos impedirá bons arremessos por causa excessivo atrito com o flange do carretel. O limite máximo aceitável onde começa a curvatura da borda do flange, até onde a linha se acomoda sem escorregar e sem afrouxar. Passado desse ponto, a linha escorregará e não se assentará, porque estará sobre a borda do flange.


    Supondo-se que diferentes molinetes da mesma categoria, de tamanhos equivalentes, estejam adequadamente abastecidos  com linha de igual espessura, os melhores arremessos serão feitos com aqueles dotados de carretel mais largo,entendendo-se como largura a distância entre os flanges (rebordos do carretel). Um carretel largo e raso solta melhor a linha do que um carretel estreito e fundo. Em nossa opinião, é desejável que o quociente da relação/largura seja de menos de 3, preferentemente não passando de 2,5---  isto é, que o diâmetro da boca do carretel  (borda do flange anterior) não dê mais do que duas vezes e meia a largura do vão útil que é preenchido com a linha.

   Muitas marcas, inclusive afamadas e tradicionais, mas notadamente de modelos mais antigos, estão bem fora desse parâmetro, dotadas de carretéis estreito, com o quociente acima de 3, chegando algumas a 4 ou mais 9 (temos um velho modelo francês da marca Luxor, cujo carretel é tão estreito que sua relação diâmetro/largura tem quociente 5,60).  Só para exemplificar , citando alguns modelos clássicos mais conhecidos, cujas medidas, salvo pequenas inexatidões na aferição, revelam: Mitchell barra-média 306/406, 3,40; Mitchell barra-pesada 488/498, 3,27; Mitchell pequeno 308/408, 3,27; Abu Cardinal 4 sueco, 3,15; Cardinal 54 sueco, 3,04; Cardinal 55 sueco, 3,10; Penn 716z, 3,28. O conhecido nacional Super Paoli tem carretel mais estreito, com 3,57. Com quociente abaixo de 3, portanto com carretéis mais largos, aparecem, entre outros, Abu Cardinal  66x, com 2,99; Mitchell 410, bom arremessador, com 2,73, e de modo geral os modelos japoneses, coreanos e americanos mais recentes, dotados de carretel externo (skited spool). Pelo visto, não deve ser uma mera tendência moderna, mas a constatação, pelos fabricantes, da importância da bobina larga como fator de favorecimento do arremesso. Quem sabe finalmente eles descobriram a América, considerando que o Escualo, nosso conhecido de longa data, o primus inter pares dos molinetes em matéria de arremesso, já há décadas adota carretel largo, com o quociente de 2,40 nos antigos modelos 6000/6006 (barra pesada) e outros da mesma linha, ainda largamente usados no casting, e de apenas 1,87 no modelo 6004, que, pelo tamanho, podemos classificar como barra média.    

Fonte: Noções Gerais de Pesca de Arremesso
Autor: Silvio Fukumoto