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Onde estão os peixes

      A exemplo de todo principiante em qualquer atividade, quem se inicia no surfcasting (pesca de arremesso de beira de praia) deve começar do começo, assimilando os princípios da coisa. Pode-se dizer que as condições básicas para uma boa pescaria compreendem local propício, o tempo favorável, o equipamento adequado, a isca apropriada e o jeito certo. Desses requisitos, só mesmo o tempo é imponderável, algo que está fora de nosso controle. Os outros fatores constituem, por assim dizer, os macetes da pesca.

      Como estamos falando de surfcasting, o local é, logicamente, a praia. E praia de mar aberto, batida de ondas  e  arrebentações. Aliás, praia é o que não falta no Brasil, do Oiapoque ao Chuí, com um vasto litoral de 7.400 Km. Exceto entre o estuário do Amazonas e o Maranhão, é um litoral pouco recortado, constituído na maior parte por longas sucessões de praias, muitas delas, de tão extensas, aparentemente intermináveis.

      Supondo-se que se trate de uma praia de razoável piscosidade,vamos limitar o conceito de local aos pontos certos, alcançáveis com os arremessos, estabelecido, desde logo, que os peixes não andam espalhados por toda parte.

      Segundo pescadores simplistas, pescar é fácil: quando o peixe puxa pra lá, você puxa pra cá. Claro que é brincadeira, pois isso qualquer um faz. O problema é que, para o peixe "puxar pra lá", você tem que estar com seus anzóis no lugar  onde estão os peixes. Descobrir esses pontos é que são elas. Por isso, para quem está começando a praticar a pesca de arremesso, é recomendável que, antes de mais nada, tenha algumas noções elementares sobre o mar, pelo menos dentro da faixa que irá explorar com seus anzóis. Se você invade um elemento que não é o seu meio ambiente, mas é o habitat das espécies que fisgar, é bom conhecer as particularidades da praia, tais como a natureza e o relevo do fundo, a profundidade da água e outros detalhes em função dos quais os peixes se movimentam no seu dia-a-dia.

      Dizem que uma diferença entre um pescador comum e um expert é que o primeiro lança seus anzóis à água para ver que bicho dá, enquanto o segundo escolhe o peixe que quer pegar, sabendo o que pode pegar e como pegar. Esta diferença resulta dos conhecimentos de pesca acumulados por um em relação ao outro.

      Se uma praia apresenta várias linhas de arrebentação, isso significa que ela é rasa. Portanto, para alcançar profundidades adequadas com seus arremessos, você terá de entrar na água e, ainda, executar lançamentos suficientemente longos. Mas não basta arremessar aleatoriamente os anzóis e ficar esperando que algum peixe morda a isca. Seus anzóis poderão ter caído    fora da faixa do peixe, e você cansará de esperar, quando um bom cardume pode estar um pouco para a frente ou para trás. É até possível que pegue alguns peixes acertando involuntariamente um canal, mas, cá para nós, pescador que se presa não pode ficar na dependência do acaso ou da sorte, porque a pesca tem ciência, não é jogo de azar.

      Quando um anônimo pescador de lambari e bagrinho, munido de uma varinha caipira, chega à beira de um córrego para pescar, ele não encosta no primeiro barranco, mesmo que não conheça o lugar. Faz um reconhecimento das margens, até achar um trecho que lhe pareça promissor: um remanso, geralmente numa curva. É porque ele sabe que ali é um "poço", um trecho de águas mais fundas onde, via de regra, há maior concentração de peixes. Ele pode até não saber por que há mais peixes nesses pontos, mas sabe que há.

      Também nas praias há "poços", lugares e faixas de água mais fundas onde os peixes se concentram quando estão ativos. São os canais, valões e depressões que existem no fundo do mar, ao longo das praias. Esses valões e canais, tal como os "poções" fluviais, além de terem água mais funda, acumulam mais alimentos para os peixes.

      Os canais ou valões, que ficam entre as linhas de arrebentação, são os caminhos dos cardumes, onde os peixes, quando se aproximam da praia à cata de alimentos, costumam andar encardumados. Logo, é nessas faixas que os anzóis devem ser lançados. Também é nesses lugares (onde comumente há fortes correntezas) que banhistas inexperientes costumam perder o pé e a vida, afogando-se, porque eles nem sabem da existência desses canais.

      Mas nem toda praia tem o mesmo esquema, pois cada uma tem suas particularidades, semelhanças e diferenças, inclusive quanto à profundidade da água, inclinação e topografia do fundo, regime das corrente, etc. Sem falar na situação geográfica na face das praias (leste, sul, oeste,etc.), que influi nessas particularidades por efeito dos ventos predominantes e das correntes que eles provocam. Nas praias de fundo de baias e enseadas geralmente não há canais como nas praias rasas de mar aberto. As melhores praias são aquelas que têm canais mais fundos. Mas como eles podem variar, em profundidade e largura, ao longo de uma praia, há também trechos melhores e piores. Também um trecho em que houver ao largo uma laje ou um parcel, embora invisíveis por estarem submersos, provavelmente será um bom ponto. Um detalhe como esse, evidentemente, só pode ser conhecido através de informações  de conhecedores do lugar.

      Nos trechos de praia de faixa de areia mais estreita e inclinação maior, em que se formam barrancos, pequenas dunas ou elevações próximas à linha d`água, pode haver canais, valões e "poções" bem próximos, visíveis por causa da água mais escura resultante da maior profundidade. Alcançáveis com arremessos curtos, mesmo do seco, são pontos promissores, ainda que pouco comuns, encontráveis em algumas praias, e que  podem mudar de lugar, dimensões e profundidade, ou até mesmo desaparecer após uma grande ressaca ou convulsões no mar.

      Outro bom lugar são os encontros de águas, onde há ondas desencontradas e o mar bate mais que em outros trechos da praia, como acontece nas pontas que dividem duas praias contíguas e nas barras de rios e canais. Nesses lugares normalmente existem bancos de areia, formando como que uma barragem submersa, com buracos e depressões. As beiradas desses "aterros submarinos" são sempre promissores.

      As praias chamadas de tombo, de acentuada declividade, são mais fundas, sem o mesmo esquema de canais das praias rasas. A faixa de areia é estreita, com areia fofa e grossa, e as ondas quebram com mais força bem próximas à linha d`água, ao encontrarem o barranco da praia e as ondas de retorno. Os peixes chegam a essa faixa de arrebentação e ao valão bem próximos para comerem. Por isso, a pesca é mais confortável nessas praias, onde não é preciso entrar na água ( e nem deve) e ficar brigando com as ondas. Em compensação, se o peixe não estiver encostando, será necessário executar lançamentos extremamente longos com equipamentos apropriado, e nem isso muitas vezes será suficiente.

      Seja qual for a conformação ou o tipo de uma praia, um fator essencial na piscosidade é a maior ou menor oferta de alimentos aos peixes, em quantidade e qualidade. A principal causa da movimentação dos peixes é a procura de alimentação para eles, tais como crustáceo, moluscos, vermes e peixes miúdos, moradores habituais de águas rasas.

      Nas praias rasas, que são também praias de banho por terem pouca inclinação e largas faixas de areia, as ondas começam a quebrar longe, formando várias linhas de arrebentação. Essas arrebentações são causadas pelos canais que existem no intervalo entre elas e são sucessivamente mais fundos à medida que se afasta da praia. Daí, pode-se deduzir, mesmo de fora da água, que, atrás de uma linha onde as ondas quebram regularmente, existe um canal, identificável como um remanso entre as ondas, uma faixa de águas menos turbulentas, e também mais fundas. Desse tipo é a maioria das praias paulistas, bem como muitas das extensas praias que se estendem pelos litorais de outros Estados.

Esquema de uma praia com várias linhas de arrebentação,vista em corte trasnversal

      A melhor forma de reconhecer na prática um canal, sua largura, profundidade e distância da praia, é entrar na água na maré baixa, principalmente se o mar não estiver muito agitado. O primeiro canal, por ficar numa faixa de ondas fracas e pouca correnteza lateral, muitas vezes não chega a carecterizar-se como um canal, e sim, como uma bacia, um rebaixado  pouco definido. Essa faixa mais rasa é normalmente freqüentada por peixes pequenos, tais como betarinhas, corvininhas, galhudinhos e  outros "inhos". Na maré alta pode-se apanhar nesta faixa peixes um pouco maiores, de tamanho aproveitável.

      Caso o primeiro canal não tenha peixe ou esteja raso demais, os peixes deverão estar mais fora, ou seja, mais no fundo, talvez no canal seguinte, a uns 30/40 m de distância mais ou menos, conforme a praia e o ponto dela. A ordem, então, é atravessar o rebaixado e seguir, pelo banco de areia, até o segundo canal, que estará atrás de uma linha de arrebentação mais forte. Desde que a profundidade ali lhe pareça suficiente--pois o canal, que está atrás da linha de arrebentação é mais fundo e não dá para atravessar----, o jeito é lançar os anzóis nesse canal. Para não se cansar pulando regularmente ondas altas, levando violentas pancadas de água na barriga e na cara, ou firmando os pés no fundo de areia para não ser arrastado, poderá voltar um pouco,soltando a linha, até uma altura de águas mais calmas e esperar a resposta do peixe ao seu "telegrama". Estando com equipamento pesado, poderá recuar mais e deixar a vara apoiada num calão ou fincador espetado no raso.

      Se, por efeito de uma vazante mais intensa, o segundo canal também não tiver peixe, a saída será tentar o terceiro canal, desde que seja possível alcançá-lo com fortes arremessos ou vadear o segundo canal sem maiores riscos. Nos canais mais fundos, notadamente nas horas de vazante de marés grandes e águas agitadas, a correnteza é muito forte em direção ao fundo. Por isso, a não ser que você seja um exímio nadador, afeito ao mar, não se aventurem em canais fundos onde possa perder o pé,principalmente quando o mar estiver "puxando", isto é, estiver numa forte vazante. Nunca se deve desafiar o mar, ainda mais quando ele estiver furioso. A gente pode até se safar de eventuais apuros, mas às vezes não sem levar chumbo... como, por exemplo, a perda total do equipamento de pesca. Se numa dessas dá uma cãibra, aí sim, que a barba cresce.

      Também se pode, de certa forma, "sentir" um canal a distância pelo comportamento da chumbada. Se a chumbada, aparentemente adequada, não parar depois de afundar, poderá ser sinal que ela não está no canal. Se, parar de rodar, possivelmente caiu no canal e poitou. claro que, se a chumbada for leve demais, rodará  sempre, e, se for excessivamente pesada, poderá para em qualquer lugar.

      Esses canais e valões ao largo da praia equivalem, pois aos chamados "poços" que existem nos rios. O que não quer dizer que fora dos canais não se encontrem peixes, já que se apanham, esporadicamente, certas espécies de superfície ou de meia água, ou mesmo outras que estejam de passagem por um banco de areia. Também não é só lançar os anzóis num bom canal e esperar boas fisgadas, pois fatores diversos, como condições climáticas e outros, podem afastar o peixe da praia ou inibir-lhe o apetite e a movimentação. O fato é que, se pretendemos sucesso numa pescaria, é preciso seguir a lógica, e a lógica, no caso é lançarmos nossos anzóis nos pontos onde normalmente há peixes, e não em locais menos prováveis.

Fonte: Noções Gerais de Pesca de Arremesso
Autor: Silvio Fukumoto